sábado, 13 de março de 2010

EU CANTO O CORPO ELÉTRICO -


EU CANTO O CORPO ELÉTRICO
poema de Walt Whitman (trecho)

Esta é a forma fêmea,
dela dos pés à cabeça emana um halo divino,
ela chama com ardente atração irrecusável,
sou absorvido por seu respirar como se não fosse mais do
que um vapor indefeso, tudo fica de lado a não ser ela e eu,
os livros, a arte, a religião, o tempo, a terra sólida e visível,
e o que do céu se esperava e do inferno se temia, tudo se acaba
estranhos filamentos, incontroláveis renôvos aparecem fora dela,
e a ação correspondente também incontrolável,
cabelo, peito, quadrís, curvatura das pernas, mãos displicentes caindo,
todas difusas, difusas também as minhas
maré de influxo e influxo de maré, carne de amor inturgescendo
e a doer deliciosamente

Eis o núcleo - depois vem a criança nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher,
eis o banho de origem e emergência do pequeno e do grande,
e a saída outra vez.

Não vos vexeis, mulheres: em vosso privilégio tendes fechados os outros
e está a passagem dos outros,
vós sois os portões do corpo e sois os portões da alma.

A Sociedade Mundial da Cegueira - Leonardo Boff


A Sociedade Mundial da Cegueira

O poeta Affonso Romano de Sant'Ana e o prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel, anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.

É ilusória a independência dos territórios da física, da química, da biologia, da mecânica quântica e de outros. Todos os territórios e seus saberes são interdependentes, uma função do todo. Desta percepção nasceu a ciência do sistema Terra. Dela se derivou a teoria Gaia que não é tema da New Age mas resultado de minuciosa observação científica. Ela oferece a base para políticas globais de controle do aquecimento da Terra que, para sobreviver, tende a reduzir a biosfera e até o número dos organismos vivos, não excluidos os seres humanos.

Emblemática foi a COP-15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague. Como a maioria na nossa cultura é refém do vezo da atomização dos saberes, o que predominou nos discursos dos chefes de Estado eram interesses parciais: taxas de carbono, níveis de aquecimento, cotas de investimento e outros dados parciais. A questão central era outra: que destino queremos para a totalidade que é a nossa Casa Comum? Que podemos fazer coletivamente para garantir as condições necessárias para Gaia continuar habitável por nós e por outros seres vivos?

Esses são problemas globais que transcendem nosso paradigma de conhecimento especializado. A vida não cabe numa fórmula, nem o cuidado numa equação de cálculo. Para captar esse todo precisa-se de uma leitura sistêmica junto com a razão cordial e compassiva, pois é esta razão que nos move à ação.

Temos que desenvolver urgentemente a capacidade de somar, de interagir, de religar, de repensar, de refazer o que foi desfeito e de inovar. Esse desafio se dirige a todos os especialistas para que se convençam de que a parte sem o todo não é parte. Da articulação de todos estes cacos de saber, redesenharemos o painel global da realidade a ser comprendida, amada e cuidada. Essa totalidade é o conteúdo principal da consciência planetária, esta sim, a era da luz maior que nos liberta da cegueira que nos aflige.

Leonardo Boff á autor de A nova era: a consciência planetária, Record (2007)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

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O QUE É ENVELHECER...


(foto niver. de uma grande amiga Soraya ... roda de dança) 2009

O envelhecimento - Leonardo Boff


Neste mês de dezembro completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.

Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.

A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: "Na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior" (2Cor 4,16).
A velhice é uma exigência do homem interior.
Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face.

Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao "silêncio obsequioso" e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos me habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.

Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida. Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.

Por fim, importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte, mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia. Aí saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.

Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: "Contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade".

Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: "Eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver".
Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus.
Parafraseando Camões, completo: "Mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida".

Leonardo Boff

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

SER MULHER...


Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida,
é lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora,
é estar antes do ontem e depois do amanhã,
é desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.
Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas,
é correr atrás das nuvens num dia de sol e alcançar o sol num dia de chuva.
Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza,
é cancelar sonhos em prol de terceiros,
é acreditar quando ninguém mais acredita,
é esperar quando ninguém mais espera.
Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa
é ser enganada e sempre dar mais uma chance, é cair no fundo do poço e emergir sem ajuda.
Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez,
é fazer mil papeis ao mesmo tempo,
é ser forte e fingir que é frágil pra ter um carinho.
Ser mulher é se perder em palavras
e depois perceber que se encontrou nelas,
é distribuir emoções que nem sempre são captadas.
Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos,
mas jamais dever, é construir castelos na areia,
vê-los desmoronado pelas águas e ainda assim amá-las.
Ser mulher é saber dar o perdão,
é tentar recuperar o irrecuperável,
é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.
Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu,
é doar o que ainda não foi solicitado.
Ser mulher é não ter vergonha de chorar por amor,
é saber a hora certa do fim, é esperar sempre por um recomeço.
Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções.
Ser mulher é ser mãe dos seus filhos e dos filhos de outros e amá-los igualmente.
Ser mulher é ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem,
é desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos
e fincar a bandeira da conquista.
Ser mulher é entender as fases da lua por ter suas próprias fases.
É ser ‘nova’ quando o coração está a espera do amor,
ser ‘crescente’ quando o coração está se enchendo de amor,
ser cheia quando ele já está transbordando de tanto amor
e minguante quando esse amor vai embora.
Ser mulher é hospedar dentro de si o sentimento do perdão,
é voltar no tempo todos os dias e viver por poucos instantes
coisas que nunca ficaram esquecidas.
Ser mulher é cicatrizar feridas de outros
e inúmeras vezes deixar as suas próprias feridas sangrando.
Ser mulher é ser princesa aos 20, rainha aos 30,
imperatriz aos 40 e especial a vida toda.
Ser mulher é conseguir encontrar uma flor no deserto,
água na seca e labaredas no mar.
Ser mulher é chorar calada as dores do mundo
e em apenas um segundo já estar sorrindo.
Ser mulher é subir degraus e se os tiver que descer
não precisar de ajuda é tropeçar, cair e voltar a andar.
Ser mulher é saber ser super-homem quando o sol nasce e virar
Cinderela quando a noite chega.
Ser mulher é ter sido escolhida por Deus para colocar no mundo os homens.
Ser mulher é acima de tudo um estado de espírito,
é uma dádiva, é ter dentro de si um tesouro escondido
e ainda assim dividí-lo com o mundo!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

OBRlGADA DEUS POR MAlS UM ANO DE BENÇÃOS.

FELIZ NATAL AMIGOS!

Formam-se nuvens de esperança num céu de bondade,
Em cada coração há uma enorme desejo de felicidade e alegria!
Lares se iluminam numa magia sem qualquer maldade,
Iniludível, apenas o amor engrandece este lindo e peculiar dia...
Zelando totalmente pela nossa total paz e harmonia!
No íntimo de cada um de nós está o sentimento mais puro,
Aquele que norteia o significado verdadeiro da comemoração,
Todos sabem que Jesus é o nosso salvador e o porto seguro,
Aquarela de todas as emoções num só bondoso coração,
Libertando em todos nós os termos da sublime doação!
Alegria em cada rosto sem mascarar a tristeza,
Mudanças de atitudes e gestos de solidariedade,
Inquietação vestida da mais simples e calorosa nobreza,
Guardando em cada Ser o sentido da sua própria verdade,
Originando a fagulha da mais verdadeira e sincera felicidade,
Somamos nossas expectativas numa única vontade: PAZ
UM PRÓSPERO ANO NOVO!

Memória viva. Publicado em 23.12.2009.


Igor de Almeida Silva resgata em boa hora a memória, a obra, a vivacidade, o erotismo e o humor fino e matreiro de Luiz Marinho (1926-2002), o dramaturgo que saiu de Timbaúba para ser universal através, principalmente, de dois grandes sucessos: Um sábado em 30 (1960), ainda hoje o melhor símbolo do TAP de Valdemar Oliveira, e Viva o cordão encarnado (1965). A partir de uma dissertação de mestrado na UFPE, Igor transforma, agora, em livro, o seu Réquiem à infância (Teses), estudo detalhado sobre as duas peças. Leitor voraz, pesquisador atento e analista minucioso, Igor confere a Marinho toda a sua grandeza como pensador (que ele não chegou a ver reconhecido), humanidade e universalidade, quando ele molda com maestria a sua melhor matéria, o ser humano, que conhecia muito bem. O pernambucano foi muito além das amarras do regionalismo.



Disponível em: http://jc3.uol.com.br/jornal/2009/12/23/col_37.php Acesso em: 23 dez. 2009.